Quem sou eu, dentre todos, para
dizer que o dicionário está errado? Ainda assim, insisto que sim. Gerar o filho
é papel do genitor (ou gerador), afinal. Pai é outra coisa.
É algo que acredito
ser definido pelo sentimento. Sentimento esse que de abstrato não tem nada. Deveras
tangível. Eu tive um pai. Demorei pra perceber que esse pai tava ali. Mas eu
sempre fui o filho dele. Não tem como definir de outra forma.
Tomei sopa
comendo tempero sentado em teu colo. O time do coração foi ele quem me deu. Me
deu a sua posição de goleiro para me ensinar a jogar bola. Me ensinou a andar
de bicicleta. Falou com emoção da copa de 70 e me apresentou uma seleção para
torcer. Me explicou o impedimento e todas as regras do futebol. Segurou minha
mão para atravessar a rua. Me levou pra chácara de teu pai. Me deu cerveja
escondido. Me deu revista de mulher nua e de piadas sacanas. Brigou na rua pra me
defender. Brigou em casa pra me defender. Me disse não quando deveria dizer. Me
deixou ser eu mesmo ao teu lado. Me deu Kinder Ovo de aniversário. Me ensinou a
empinar arraia, a fazer arraia. Me ensinou e jogou botão comigo. Me levou pra
praia. Chorou no meu quarto suas perdas. Me ensinou a sonhar. Adorava me ver
tocar violão. Bebeu vinho comigo. Me ensinou a dirigir! Fui seu ajudante em
teus negócios. Meu maior ídolo da música
foi ele quem me apresentou. Ouviu e dançou reggae comigo. Adorou conhecer minha
namorada. Me apresentou feliz sua nova namorada.
Sempre sorriu ao me ver. Me
amou incondicionalmente e sempre me quis ao teu lado durante esses brevíssimos
23 anos que estivemos juntos. Fico feliz por eu ter reconhecido e dito a ele
antes de sua partida que ele era o meu Pai! Pois não tem como definir de outra
forma o que ele foi pra mim. Obrigado por tudo! Sinto tua falta sempre e pra
sempre vou sentir...
Salvador, 25 de Junho de 2012, dois anos e cinco meses de saudades eternas.
